Expansão da inteligência artificial impulsiona a construção de novos data centers no país, atraindo bilhões em investimentos e fortalecendo a posição do Brasil como um dos principais mercados de infraestrutura digital da América Latina.
O Brasil vive um dos maiores ciclos de investimento em infraestrutura digital de sua história, impulsionado diretamente pela expansão da inteligência artificial. Levantamentos recentes do setor apontam que o país já concentra quase metade de toda a capacidade instalada de data centers da América Latina, posição que deve se fortalecer ainda mais nos próximos anos.
A dimensão dos aportes globais
O movimento começa nos Estados Unidos, onde as maiores empresas de tecnologia do mundo elevaram substancialmente seus orçamentos de investimento. Segundo reportagem da BPMoney, gigantes de tecnologia como Amazon, Microsoft e Google investirão US$ 725 bilhões em 2026, com 75% desse montante focado em infraestrutura de inteligência artificial. Trata-se de um salto de aproximadamente 77% frente ao que essas companhias gastaram em 2025, de acordo com a BrazilCham.
Para dar noção da escala desses números, a mesma reportagem cita análise da Ágora Investimentos segundo a qual esse volume de capital se aproxima do produto interno bruto da Argentina e mais que dobra tudo o que foi investido pelo grupo de hiperescaladores entre 2022 e 2024. É esse fluxo de capital em busca de energia limpa e terrenos disponíveis que colocou o Brasil no radar de investidores internacionais.
Por que o Brasil virou destino estratégico
O principal atrativo do país está na combinação entre matriz elétrica limpa e ambiente regulatório favorável. Segundo o GRI Hub News, a matriz elétrica brasileira é composta por 80% a 85% de fontes renováveis, característica rara entre os países que disputam a instalação de novos data centers voltados à inteligência artificial, atividade que demanda volumes elevados e constantes de energia.
Os números de capacidade já refletem esse movimento. De acordo com a Associação Brasileira de Data Center, conforme reportado pela Folha de S.Paulo, novos projetos de data centers no Brasil devem adicionar 2.000 megawatts à capacidade atual, com investimentos estimados em cerca de US$ 20 bilhões. O país caminha para mais que dobrar sua capacidade instalada até o fim de 2026, saltando de 826 megawatts para 1.746 megawatts, tornando-se o primeiro da América Latina a ultrapassar a marca de 1 gigawatt.
Projetos concretos já em construção
O movimento não é apenas projeção. Em maio deste ano, a Ascenty, que administra 26 data centers no Brasil, anunciou a construção do primeiro complexo dedicado exclusivamente à inteligência artificial no país. Segundo a Revista Fórum, localizado em Sumaré, no interior de São Paulo, próximo a Campinas, o investimento total chega a R$ 30 bilhões, dos quais R$ 6 bilhões vêm da própria empresa e de seus controladores, enquanto os clientes devem aportar mais R$ 24 bilhões em supercomputadores.
A unidade deve começar a operar no último trimestre deste ano, com capacidade inicial de 60 megawatts, podendo chegar a 160 megawatts. Entre os clientes da instalação estão Microsoft e Oracle, esta última com investimentos bilionários em parceria com a OpenAI, criadora do ChatGPT, o que demonstra como a cadeia global de inteligência artificial já passa diretamente pelo território brasileiro.
O papel do Redata e os gargalos regulatórios
Parte da atratividade do país depende de um regime tributário específico ainda em tramitação. O programa Redata pode impulsionar investimentos locais para R$ 100 bilhões anuais, elevando a capacidade de 750 megawatts para 3 gigawatts até 2032, segundo a BPMoney. O regime prevê isenções fiscais como redução de impostos sobre importação de equipamentos, o que reduziria o custo de trazer chips de ponta ao país.
Apesar do potencial, a materialização integral desses investimentos ainda depende de obstáculos concretos. Segundo o GRI Hub News, a realização do pipeline de US$ 20 bilhões depende de desafios críticos como a absorção da demanda energética pela rede elétrica, a aprovação do regime tributário Redata e a agilidade no licenciamento ambiental de mega-empreendimentos, fatores que podem atrasar cronogramas mesmo diante do apetite crescente de investidores internacionais.
Impacto sobre importações e a balança comercial
A corrida por infraestrutura de inteligência artificial também deixa marcas na balança comercial brasileira. Segundo a consultoria Gartner, citada pela BPMoney, os investimentos globais em inteligência artificial devem alcançar US$ 2,59 trilhões em 2026, valor 47% maior que o registrado no ano anterior, sendo que mais de 45% desse montante deve financiar infraestrutura como servidores, semicondutores, redes e centros de dados. Como o Brasil não produz boa parte desses componentes internamente, a expansão dos data centers tende a pressionar as importações de equipamentos tecnológicos no curto e médio prazo.
O que esperar dos próximos meses
Com o setor elétrico brasileiro sendo tratado por analistas de mercado como um ambiente favorável à instalação de novos complexos, e com eventos do setor movimentando o calendário de negócios, caso do GRI Data Center 2026, previsto para meados deste mês em São Paulo, a tendência é que o Brasil siga ampliando sua participação na cadeia global de infraestrutura de inteligência artificial. O desafio, segundo especialistas do setor, será equilibrar esse crescimento acelerado com a capacidade de resposta da rede elétrica e dos órgãos responsáveis pelo licenciamento ambiental dos novos projetos.
Fontes:
- https://bpmoney.com.br/economia/data-centers-ia-brasil-100-bilhoes-ano-acoes/
- https://brazilcham.com/news/posts/brasil-se-torna-polo-de-data-centers-de-ia-com-investimentos-bilionarios-de-gigantes-da-tecnologia
- https://news.griinstitute.org/pt/infraestrutura/data-centers-brasil-2026-mapa-projetos-players-capacidade-digital
- https://revistaforum.com.br/tecnologia/investimento-data-center-brasil/
- https://bpmoney.com.br/economia/ia-deve-movimentar-us-259-trilhoes-em-2026-e-impulsiona-importacoes-de-tecnologia-no-brasil/
