DBN Biotech amplia presença no Brasil, prepara centro de pesquisa em Campinas e aposta em genética, inteligência artificial e novas tecnologias para disputar espaço no maior produtor mundial de soja.
China amplia presença tecnológica no agronegócio brasileiro
A relação econômica entre Brasil e China está avançando para além da tradicional compra e venda de commodities. Empresas chinesas começam a buscar uma participação maior na própria tecnologia utilizada na produção agrícola brasileira, especialmente em áreas como biotecnologia, genética de sementes e ferramentas digitais para aumentar a produtividade.
Um dos movimentos mais ambiciosos é o da DBN Biotech, companhia chinesa que pretende alcançar aproximadamente 30% do mercado brasileiro de biotecnologia agrícola até 2038. A estratégia coloca o Brasil no centro dos planos internacionais da empresa e evidencia uma nova fase da relação entre os dois países: além de comprar soja brasileira, a China também quer fornecer parte das tecnologias empregadas para produzi-la. (Folha de S.Paulo)
Brasil é estratégico para a DBN
O interesse chinês está diretamente relacionado ao tamanho e à importância do agronegócio brasileiro. O Brasil ocupa posição de liderança mundial na produção e exportação de soja, enquanto a China é o principal destino internacional do grão.
Essa complementaridade econômica cria oportunidades para empresas interessadas em participar de etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva. Em vez de atuar apenas na comercialização das commodities, companhias chinesas querem fornecer sementes, características genéticas e soluções capazes de melhorar a produtividade das lavouras.
A DBN já atua no Brasil e considera o país uma plataforma estratégica para ampliar seus negócios na América do Sul. A companhia trabalha principalmente com características voltadas à resistência a insetos e à tolerância a herbicidas. (Folha de S.Paulo)
Centro de pesquisa será instalado em Campinas
Um dos principais passos dessa expansão será a implantação de uma estrutura de pesquisa e desenvolvimento em Campinas, no interior de São Paulo, importante polo brasileiro de ciência e tecnologia agrícola.
Inicialmente, o trabalho deverá se concentrar em soluções destinadas à soja. Posteriormente, a companhia pretende avançar também sobre culturas como milho e algodão, ampliando a variedade de tecnologias adaptadas às condições agrícolas brasileiras. (Folha de S.Paulo)
A instalação de pesquisa no próprio Brasil é particularmente importante porque variedades desenvolvidas em outros países precisam ser adaptadas às características climáticas, agronômicas e fitossanitárias das diferentes regiões produtoras brasileiras.
Inteligência artificial entra no desenvolvimento agrícola
A estratégia não está limitada à biotecnologia tradicional. A empresa também utiliza ferramentas de inteligência artificial e modelagem computacional no desenvolvimento de características genéticas.
Entre as linhas de pesquisa estão proteínas relacionadas à resistência das plantas contra insetos e modelos voltados ao combate de doenças agrícolas. A ferrugem asiática da soja, por exemplo, aparece entre os problemas considerados nesse trabalho de desenvolvimento tecnológico. (Folha de S.Paulo)
Também estão sendo estudadas soluções contra pragas como percevejos e, no caso do algodão, o bicudo.
Esse movimento demonstra como a digitalização está chegando às etapas mais sofisticadas da agricultura. Inteligência artificial, edição gênica, seleção genômica e análise de grandes quantidades de dados passam a integrar o desenvolvimento de novas variedades.
Parcerias devem acelerar entrada no mercado
A DBN pretende crescer também por meio de acordos com empresas já estabelecidas na América do Sul. Uma das estratégias mencionadas envolve parceria com a argentina GDM, companhia com forte presença no mercado brasileiro de sementes de soja. (Folha de S.Paulo)
Essa estratégia pode facilitar a entrada das novas tecnologias nas principais regiões produtoras e reduzir o tempo necessário para conquistar participação em um mercado atualmente disputado por grandes multinacionais.
A meta de 30%, portanto, representa um objetivo de longo prazo e não a participação atual da companhia no Brasil.
China investe para reduzir dependência tecnológica
A expansão internacional ocorre paralelamente a uma transformação da própria agricultura chinesa. Pequim tem investido em biotecnologia, agricultura digital, inteligência artificial e melhoramento genético para aumentar a produtividade e fortalecer sua segurança alimentar.
A China enfrenta limitações estruturais importantes, principalmente relacionadas à disponibilidade de terras agrícolas e recursos naturais. Ao mesmo tempo, precisa alimentar uma população enorme e uma cadeia de produção animal altamente dependente de grãos e proteínas vegetais.
A soja ocupa posição particularmente importante nesse cenário. A China permanece fortemente dependente das importações, e o Brasil é seu principal fornecedor.
Uma relação que pode ir além da exportação de soja
A entrada de empresas chinesas de biotecnologia também pode alterar a natureza da relação econômica bilateral.
Historicamente, grande parte do vínculo agrícola Brasil-China está baseada em uma divisão relativamente simples: o Brasil produz e exporta commodities, enquanto a China compra grandes volumes dessas matérias-primas.
A expansão tecnológica acrescenta uma nova camada a essa relação. Empresas chinesas passam a tentar capturar valor dentro da própria cadeia produtiva brasileira, fornecendo tecnologias utilizadas antes mesmo da colheita.
Para produtores brasileiros, uma maior quantidade de fornecedores pode ampliar as opções disponíveis e intensificar a concorrência no mercado de sementes e biotecnologia. Por outro lado, o avanço também aumenta a importância de questões relacionadas a propriedade intelectual, royalties, regulação de organismos geneticamente modificados e autonomia tecnológica.
Concorrência tende a aumentar
O mercado brasileiro já possui grandes grupos internacionais especializados em sementes, defensivos e biotecnologia. Por isso, conquistar uma participação de 30% será um desafio considerável para qualquer novo competidor.
A presença chinesa, porém, não começa do zero. Empresas do país já fizeram investimentos importantes no agronegócio brasileiro ao longo dos últimos anos. A LongPing, por exemplo, tornou-se uma participante relevante no setor de sementes, enquanto outros grupos chineses avançaram em comercialização de grãos, insumos e infraestrutura agrícola. Documentos da Embrapa já registravam anteriormente o interesse de companhias chinesas em ampliar significativamente sua participação no setor de sementes e biotecnologia brasileiro. (Embrapa)
Tecnologia ganha peso na relação Brasil-China
A movimentação da DBN evidencia uma transformação mais ampla: tecnologia agrícola está se tornando uma área estratégica da relação econômica entre Brasil e China.
O interesse chinês não está mais restrito ao volume de soja que sai dos portos brasileiros. Genética, biotecnologia, inteligência artificial, pesquisa agrícola e propriedade intelectual começam a ocupar espaço crescente nessa relação.
Caso os investimentos planejados avancem, o Brasil poderá se tornar não apenas um dos principais fornecedores de alimentos para a China, mas também um importante campo de desenvolvimento, teste e comercialização de tecnologias agrícolas chinesas.
Para o agronegócio brasileiro, a chegada de novos competidores pode ampliar investimentos em pesquisa e aumentar a oferta de tecnologias. Ao mesmo tempo, coloca no centro do debate econômico questões como competitividade, domínio tecnológico e a capacidade brasileira de continuar desenvolvendo inovação própria em um setor fundamental para sua economia.
Fonte principal: reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 14 de agosto de 2026. (Folha de S.Paulo)
